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Citroen 1954

Salvador, 25/07/2001

Projeto de restauração executado pelo nosso amigo Ulisses Brito - Bahia

 ubritto@compos.com.br

 

Estou encaminhando a história do Citroen 1954 mais tarde batizado de Centelha Vermelha, que eu recuperei durante 5 anos.

1a fase

Quando eu tinha 13 anos (a 33 anos atrás) eu achei um Citroen 6 cil., e tanto insisti com meu pai que ele comprou, como se fosse um brinquedo grande. Dois anos depois, sem dinheiro para poder terminar de consertar o carro, ele foi vendido como ferro velho. Foi aí que eu contraí o vírus.

Sem poder manter o vício, fiquei em abstinência até que me formei e pude ganhar meu próprio dinheiro.

Quando me formei recomecei a procurar carros antigos para comprar. Encontrei alguns, ou estado muito ruim para recuperar, ou em estado muito bom e caro. Um dia, encontrei em uma oficina outro Citroen, ano 1954. Não estava em bom estado mas era um carro antigo e da sua carroceria não faltava nenhuma parte importante. As únicas peças que faltavam eram as quatro maçanetas do capo do motor, a maçaneta dianteira direita e todas as maçanetas internas. Em (des) compensação, da mecânica, elétrica e de capotaria não possuía mais nada. O dono tinha tentado a cerca de dez anos atrás instalar um motor de fusca no carro e a carroceria do Citroen estava soldada sobre um chassi VW.

Procurei o dono e depois de alguma conversa, comprei o dito.

A primeira providencia foi arrastar o bicho para outra oficina que ficava duas casas adiante de onde o carro estava. Nesta oficina iniciei os serviços retirando qualquer vestígio da mecânica wolksvageana. O que faria com a carroceria ainda não tinha decidido, mas algumas linhas mestras já se delineavam. Sabia que o peso do Citroen era em torno de 1200 kg e então procurei uma mecânica de carro nacional com tivesse um peso semelhante. Ao ler na revista 4 rodas que o Opala pesava em torno de 1180kg e a Caravan ficava em cerca de 1250kg, decidi utilizar a mecânica de um desses carros.

Na dúvida se todas as adaptações surtiriam efeito, comprei um Opala branco, bem velho e lexento. Os bancos eram tão imundos que tive nojo de dirigir o carro, pedindo ao ex-dono que deixasse ele na oficina.

Lá, o carro foi completamente depenado da carroceria, só sobrando o monobloco e assoalho do Opala. Carregamos a carroceria do citroen e colocamos em cima do monobloco e então iniciou-se um processo de - corta um pouquinho aqui, estica um pouquinho ali, entorta outro pouquinho acolá e finalmente a carroceria e o monobloco ficaram juntos. Para caber na largura da carroceria, o chassi do Opala foi estreitado em cerca de 40cm, 20 de cada lado.

Faltava ainda encompridar as longarinas dianteiras pois a distância entre-eixos do Citroen era maior 31 cm que a do Opala. Fiz os moldes das pecas que iriam aumentar as longarinas dianteiras, dobrando a chapa 16 no formato adequado e estas foram soldadas aumentando devidamente o entre-eixos do Opala.

O próximo passo foi montar a mecânica. Para o motor, foram criados dois apoios que foram devidamente aparafusados nas longarinas, enquanto que o apoio da caixa de marcha continuou o mesmo.

Quando foi montado o cilindro mestre do freio, este ficou na mesma localização do carburador. Perdi umas duas noites pensando em como resolver o problema. A decisão foi reduzir o suporte do hidrovácuo e o parafuso interno que transmite o movimento do pedal para a bomba de freio foi devidamente encurtado. Falando assim, parece simples, mas fazer o serviço foi muito complicado.

A direção foi outro drama. Embora a caixa de direção ficasse no mesmo local que no Opala, a pouca largura do Citroen obrigava o volante a ficar 20cm mais para o centro que no Opala. Com isto, a barra de direção que saia direto da caixa de direção para o volante, teve que fazer um zig-zag tremendo, conseguido com juntas universais da direção do Fiat 147, devidamente adaptadas.

O resultado, apesar de aceitável em termos de mecânica, causou como consequência imediata o endurecimento da direção. Dirigir o Citroen era como dar uma malhada na academia. Saia de lá com os braços grossos. Penei durante quase 6 anos com esta direção, até que em 1997 reuni meus esforços no sentido de adaptar uma caixa de direção hidráulica do Opala que ficou ótima.

O motor é o velho GM quatro cilindros, o qual teve o bloco pintado de vermelho e a tampa de válvulas e de tuchos cromadas. Tem freio a disco nas 4 rodas (os trazeiros são de Alfa-Romeo, inclusive freio de mão), bancos altos, volante de madeira, a bola da alavanca é uma caveira de alumínio feita por um amigo escultor, os pedais tem a forma de pés, recortados em chapa de alumínio, a carroceria do carro foi totalmente pintada de vermelho, assim como as suspensões (molas, amortecedores, braços de suspensão, eixo traseiro, etc - tudo pintado de vermelho).

Muitas peças do carro foram adaptados de outros ou alterando-as em torneiros. O radiador foi feito com as caixas superiores e inferiores de chevette e a colmeia recortada de uma do radiador de uma pick-up. No cabo do acelerador tem peças de três carros diferentes. O velocímetro original foi totalmente desmontado, sendo que eu pintei o fundo do mesmo de preto e apliquei todos os números e letras em Letra-set vermelha e depois inventei um artifício para poder usar o cabo de velocímetro do Opala. Os parafusos das rodas traseiras são de Pick-up Toyota, os pisca e lanternas traseiras são de teto de caminhão Mercedes de 1960 e por aí vai.

Não vou ficar enchendo vocês com as proezas que ele faz - na realidade não faz nenhuma, a não ser funcionar adequadamente, deixo ele um mês sem ligar, quando bato na chave ele pega e me leva para os lugares que eu quero sem quebrar. Também é muito estável, não puxa a direção, freia muito bem, ou seja, se comporta (quase) como um carro normal. Só não é melhor porque é muito baixo (menos de 15cm do chão, aliado à distância entre eixos mais de 30cm maior que a de um opala, o que faz com que ele arraste o fundo em qualquer lombada).

 Seção de fotos 1

Foto 1 - Esta foto foi tirada logo quando ficou pronto em 1990. Depois fiz algumas alterações:. na frente tem mais dois faróis redondos, no meio do pará-choque e dois retangulares em baixo. Além disto, os parafusos do pará-choque são de inox.

 

Foto 2 - Agora de costas. Posteriormente fiz algumas alterações: Embaixo da lanterna traseira esquerda tem uma placa azul escrito (PARIS - FRANCE - 1954 - CITROEN). Os pneus traseiros são mais largos e mais altos (Firestones importados na medida 225/70 - 14).

Foto 3 - O patinho feio. Nesta foto já haviam decorrido uns 6 meses de trabalho e ele ainda se parecia com um grande pedaço de merda.

 

 

Bom, o jogo só estava no começo.

Foto 4 - O criador e a criatura. Alguém até poderia dizer - Dr. Frankenstein e o Monstro. Esta foto foi tirada em 1987, com cerca de um ano de trabalho realizado.

 Foto 5 - Esta foto foi tirada no dia em que eu dirigi ele pela primeira vez, sem os faróis, sem luzes traseiras, sem tampa de tanque de gasolina, sentado num caixote de madeira, com os pneus completamente lisos.

 Pelamordideus, onde foi que eu achei coragem para dirigir uma moqueca destas?

 Foto 6 - Mr Hyde...

 

Foto 7 - e Dr. Jekill

 

 Estas duas fotos, tiradas mais ou menos do mesmo ângulo, mostram o carro antes e depois da pintura. Não existe nada como maquiagem para transformar pessoas feias em bonitas!

 Foto 8 - Meus filhos Michelle e Alexandre curtiam bastante o carro (hoje não curtem mais)

Dá para ver uma parte do motor Opala 4 cilindros

 

Foto 9 - Vista interna. Esta foto foi tirada em 1991, já com o carro na garagem.

 

 

Depois desta foto, mandei fazer um botão de buzina em alumínio polido e o retrovisor voltou para sua localização original que é sobre o painel.

  

2a fase

O citroen ficou pronto em 1991 conforme descrito acima. Neste meio tempo eu comprei um Puma GTB 83 e ficava alternando o Citroen com o Puma. 6 anos depois vendí o puma, e um ano depois já estava com saudades das arrancadas que dava com o GTBão.

Decidi então trocar o motor do Citro. Inicialmente pensei no 6 cilindros do Opala mas não coube pois quando instalei o motor 4 cilindros, ele ficou praticamente encostado no radiador que por sua vez está encostado na grade dianteira, não existindo espaço na frente para o motor 6 cil. A solução seria recuar motor e caixa, mas com isto a alavanca de marcha iria cerca de 25cm para trás, entre os bancos, numa posição impossivel de utilizar. Além do mais, teria que encurtar o cardã e mudar os apoios da caixa de marcha.

Então decidi pelo motor V6 da Blazer, que por incrível que pareça, acopla sem nenhum problema na caixa de marcha do Opala, precisando apenas adaptar o platô e disco do opala 6 cilindros no volante do Vortec V6.

Comprei então o motor e mais toda a parafernália eletrônica (módulo, sensores, fiação do motor - são 120 fios que saem do módulo para o motor), além do compressor do ar condicionado, bomba da direção, alternador e tudo o mais para fazer o motor funcionar.

Durante 1 ano, fiquei adaptando o motor no citro. Eu achava que iria tirar e botar o motor no lugar umas 40 vezes até caber. Na realidade foram "apenas" 25 vezes.

Para reforçar o conjunto, criei um chassis de perfil retangular 6x4cm, com paredes de 2mm de espessura, paralelo às longarinas do opala. Esta estrutura segura o motor, a caixa, suspensão dianteira e caixa de direção que foi substituída pela do Golf (pinhão e cremalheira - hidráulica), instalada embaixo do motor, visto que a caixa de direção do opala não cabia mais no compartimento do motor.

As lanternas traseiras antigas foram substituídas por umas que eu mesmo inventei, a partir das lanternas do jeep, utilizando tubos plásticos de água, luminárias de cozinha, fibra de vidro e massa plástica. O resultado é bem razoável, é só comparar a foto 2 com as fotos 13 e 16.

Mandei fazer um tanque de aço inox com 75litros, inclusive a sede para caber a bomba elétrica de combustível da Blazer, na foto 15 da para ver.

Para completar o conjunto, recortei em alumínio pedais em forma de pés, ficaram muito legais - ver foto 14.

Hoje o carro está quase perfeito. Faltam pequenos ajustes no freio e na direção, mas anda muito bem, tem uma arrancada fantástica, ou seja, atende perfeitamente ao que se propôs. Só não tenho ainda uma foto dele completamente pronto com o motor da Blazer, pois nas fotos 1 e 2 ele ainda estava com o motor do Opala.

 Um Abraço

Ulisses Britto Jr.

O Ulisses esta com outro projeto, ele esta recuperando uma cabine de caminhão 1956 que vai ser transformada em pick-up através de uma "grande cirurgia".

Aguarde por fotos atualizadas do Citroen, e também do seu novo projeto

 

SEÇÃO DE FOTOS 2

Foto 10: O motor já no lugar. Pelo tamanho da helice (50cm) ele quase levantava voo na primeira vez que ligou.

 

Foto 11: O motor praticamente desaparece na confusão das mangueiras.

    

Foto 12: Compare esta foto com a de numero 4. A camisa é a mesma, mas a barriga - quanta diferença! 15 anos separam as duas fotos.

Foto 13: Nesta foto dá para ver o tanque em aço inox (75 litros) com a bomba elétrica já instalada e as lanternas traseiras feitas a partir das lanternas de jeep.

 Foto 14: Vista dos pedais. Eles foram recortados com serra tico-tico elétrica em uma chapa de alumínio com 3mm. Demorei três dias para fazer cada um.

Foto 15: Outra vista do motor, agora já pintado e funcionando.

 Foto 16: Outra foto da traseira. Detalhe para as lanternas e as duas saídas cromadas.

 

 

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